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EDIÇÃO 44
Paixão à segunda vista
Reggio Calábria
É no dedo da bota que está o quilômetro mais bonito da Itália
Por Paula Albocino
Fotos Paula Albocino
A beleza óbvia de cidades italianas como Florence ou Veneza não passou por Reggio Calábria. Lá não tem os monumentos históricos, as velhas pontes e as vias que oferecem uma foto de cartão postal em cada esquina.
Reggio Calábria é tão encantadora que fascinou o escritor Edward Lear. Logo após conhecer a cidade, declarou que Reggio é um dos lugares mais belos que se pode encontrar na Terra. Dificilmente alguém concordaria com essa afirmação à primeira vista.
Mas só quem a explora consegue entender e se apaixonar. Reggio está no dedo da bota da Itália e, assim como toda a região, foi vitima de vários terremotos que destruíram a cidade inteira. E as cicatrizes estão por toda a parte. Fundada pelos gregos em 720 a.C, é a segunda cidade mais antiga da Itália, atrás somente de Matera.
A praia: o coração da cidade
A melhor época para conhecer Reggio Calábria é durante o verão e a praia é o coração da cidade. A estrada que acompanha toda a praia da cidade se chama Lungomare Matteotti, mais conhecida como Via Marina. É o ponto ideal para começar o dia com um belo café da manhã.
São várias as cafeterias ao longo da estrada. As mais tradicionais são Matteotti e Sotto Zero. Ambas possuem mesas na área externa com vista para o mar. O café da manhã italiano é doce. Geralmente um croissant recheado com nutella acompanhado por um café “corto” bem forte. Se preferir, um sanduíche de sorvete cai muito bem, com brioche no lugar do pão.

Durante o passeio pela Via Marina avista-se a Sicília o tempo todo. Em dias sem nuvens quem desponta no horizonte é o Etna, o vulcão mais alto da Europa. Tão alto que conserva neve no topo da montanha mesmo durante o verão. Com essa vista exuberante, o Lungomare é também conhecido como “o quilômetro mais bonito da Itália”.
Caminhando-se em direção ao Etna, a Via Marina oferece algumas pistas da idade avançada de Reggio: uma tumba do período helenístico, os restos de um muro construído pelos gregos no século 5 a.C. e de uma “terme” romana, cujo mosaico do pavimento foi parcialmente conservado.
Mas Reggio parece querer negar sua idade. Estátuas modernas de homens gigantes decorados com desenhos geométricos, espalhadas por toda a estrada, roubam a atenção dos turistas menos atentos.


A cidade dos degraus
Reggio Calábria é construída em degraus. Sobe-se cada vez que se afasta da praia. Por isso, por quase toda a cidade, consegue-se avistar o mar e a Sicília. Na direção oposta à praia, subindo poucos blocos, encontra-se o “corso Giuseppe Garibaldi” ou Via Garibaldi. Nesta larga rua de pedestres, há lojas, perfumarias, bolsas e acessórios. Por falar em moda, Reggio Calábria é a cidade dos famosos estilistas Gianni e Donatella Versace.
A Via Garibaldi também denuncia a idade de Reggio do início ao fim. Começa no Museu Arqueológico Nacional, o segundo mais importante do mundo na área de arte da Magna Grécia. Sua atração mais famosa são as estátuas de Riace. Foram encontradas na década de 70 na Vila de Riace, perto de Reggio, e são réplicas em bronze de dois homens nus feitas provavelmente no século 5 a.C.
Não se sabe com certeza quem as fez. Alguns estudiosos a atribuem a Fidias, o maior escultor da Grécia Antiga. São classificadas no museu simplesmente como “Estátua A” e “Estátua B” e valem uma visita.
Saindo do museu, a uns dois quilômetros de caminhada pela Via Garibaldi, chega-se à Praça Duomo, onde está a imponente Catedral de Reggio. Reconstruída em 1908, é famosa por ser o maior edifício religioso da Calábria. Ao final da Via Garibaldi, alguns blocos acima, alcança-se o Castelo Aragonese, construído antes de 540, do qual hoje resta um pouco mais da metade.
A tradicional siesta e o mar sem ondas
A Via Garibaldi, assim como praticamente toda a cidade, fica deserta após o almoço. Todas as lojas e até supermercados fecham durante a siesta, reabrindo por volta das quatro da tarde. Nesse horário, e com o calor que atinge mais de quarenta graus, a melhor opção é descer para a praia.
O mar de Reggio é relativamente quente durante o verão. Quase sem ondas, parece uma piscina gigante e, por ventar bastante, é ideal para a prática de Windsurf e Kitesurf. O mar quase parado, com as velas coloridas cruzando e passando de um lado a outro, lembra uma coreografia bem ensaiada. A praia não é de areia, mas de pedrinhas que machucam o pé de quem caminha descalço.
No final do dia, nada como observar “Il tramonto”- por do sol em italiano - que, no verão, acontece por volta das nove da noite, e seguir para um dos restaurantes da cidade. Pratos feitos com peixe espada são tradicionais não só na Calábria como também na Sicília.

Discoteca à beira mar
Já a vida noturna é agitada. A partir de junho até meados de setembro, os “lidos” tomam conta de quase toda a praia. “Lidos” são áreas privadas que, durante o dia, alugam cadeiras com guarda-sol e vendem bebidas e petiscos.
À noite, esses “lidos” se transformam em discoteca à beira mar, com noitadas que duram até o amanhecer. As mais badaladas são A’rriba, Peppys e Cajalunco.
As mulheres não devem estranhar o assédio. Os regginos são desinibidos, falam alto, gesticulam, puxam conversa e as convidam para sair sem nenhuma cerimônia. Os homens também não estranhem quando um italiano vier cumprimentá-lo com dois beijos no rosto, é costume em toda Itália.
Quando acaba a balada, o pessoal ainda segue para bares como Eurone, na Via Marina, e Bart’s, na Via Garibaldi. Ambos ficam abertos a noite toda e servem, além de bebidas, sanduíches e petiscos. Ai é hora de experimentar outra especialidade do sul da Itália: o arancino (pronuncia-se arantchino), que parece uma coxinha por fora e, por dentro, tem risoto com carne ou queijo.
No lugar das baladas, tem quem prefira reunir os amigos na praia e entrar no mar a noite. Principalmente em praias mais distantes do centro, vê-se fogueiras acesas e pessoas que cantam e dançam ao som do violão.
Por tudo isso Reggio Calabria é apaixonante. Ela não entrega sua idade e beleza a turistas de passagem, mas quem a conhece entende Edward Lear.
Paula Albocino mora atualmente na Europa e assina o blog http://tirandoacidadania.blogspot.com
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