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EDIÇÃO 40
Saga Lusa
Adriana Calcanhotto conta seus delírios e alucinações em Portugal
Por Bruna Mozer Foto Gilda Midani

Residenciais. É verdade que você teve um surto psicótico ao escrever Saga Lusa? Adriana Calcanhotto. O livro é a resposta que dou a um e-mail. Nele relato que eu saí do Brasil para uma turnê em Portugal. Não comi no avião e nem consegui dormir. No primeiro show, faltou luz e cantei sem microfonação. Tomei uma corrente de ar e fiquei muito gripada. O médico do hotel prescreveu alguns remédios, mas a febre não baixava. Me levaram para o hospital e me deram mais remédios. Isso me deu uma confusão mental. Estava fazendo tratamento à base cortisona e esses remédios potencializaram seus efeitos. Fiquei dias acordada e completamente acelerada com delírios, alucinações, ouvindo vozes e vendo coisas.
Residenciais. A sua narrativa é leve. Como lidar com a situação com certo humor?
Adriana Calcanhotto. A auto-ironia é um pouco desse olhar de fora. Foi uma maneira de estar vivendo fora daquilo; de não me misturar com aquilo que estava acontecendo. É uma coisa que sempre me acontece quando me encontro em momentos difíceis. Tento relativizar as coisas complicadas.
Residenciais. Quando você se deu conta que aquilo que você estava escrevendo fosse virar um livro? Adriana Calcanhotto. No momento em que me deu pena pensar que estava escrevendo para deixar na gaveta. Essas excitações e incrustações. Estava confiando que teria um leitor que entendesse tudo aquilo. Então pensava: escrever tudo isso está me ajudando e se está me ajudando é um livro de auto-ajuda. Por que vou deixar guardado?
Residenciais. É indiscutível o seu potencial de escrita. Você já havia pensado em escrever um livro? Adriana Calcanhotto. Muitas pessoas me perguntavam se eu pensava em escrever um livro. Achava as pessoas loucas. Acho que não me dava conta de que há muito tempo eu venho exercitando a escrita. Respondo entrevistas por e-mail sem parar. Me correspondo muito com as pessoas; escrevo o tempo todo. Só que achava que não escrevia. Na verdade, eu acho que a gente tem que escrever quando se tem o que dizer, senão é melhor ficar quieto. Não fiz um projeto de um livro. Quando vi, escrevia porque estava precisando escrever. E, escrever pra ninguém não tem graça.
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