Quinta-Feira, 9 de Setembro de 2010

EDIÇÃO 39

Meus pais acham que são adolescentes

Pais que se comportam como os filhos. Filhos que acabam virando pais. Quando os papéis começaram a se inverter?

 

Por Thais Fernandez

Ilustração Joubert Lancha

 

 

Eles freqüentam festas até altas horas. Muitas vezes chegam alcoolizados em casa. Usam roupas extravagantes. Riem e contam piadas como crianças. Chegam até a sumir de casa em determinados momentos. Um fenômeno cada vez mais marcante no mundo moderno é a busca constante pela eterna juventude. Mas e quando o comportamento típico de adolescente começa a interferir diretamente na relação familiar entre pais “degenerados” e filhos “caretas”?

 

Nas famílias cujos pais ainda não amadureceram para a vida é comum os filhos adotarem uma postura rigorosa frente às atitudes impensadas dos pais e das mães e assumir as responsabilidades domésticas, como cuidar da casa ou do irmão mais novo. Os papéis se invertem: pais passam a ser filhos e “controlados” por eles; e os filhos exercem papel de autoridade do lar, inibindo muitas vezes atitudes que deveriam ter nessa fase da vida.

 

“Meu pai se comporta como um garotão. Veste-se como garoto, vive de boné, tênis e bermuda de surfista. Sai de casa sem avisar e volta bêbado, principalmente nos fins de semana. Uma vez ele até deixou um bilhete dizendo que tinha fugido de casa e que precisava dar um tempo. Voltou uma semana depois como se nada tivesse acontecido.

 

Desde os meus 14 anos eu sou a chata da casa; eu sou a adulta. Tenho que dar uma de mãe com minha própria mãe e com o meu irmão”, conta a administradora de empresas Silvia Oliveira.

 

 

Os adultescentes
Especialistas acreditam que pessoas com esse tipo de comportamento juvenil possuem dificuldade em aceitar que envelheceram. O fenômeno recebe o nome de adultescência, na clara aglutinação das palavras adolescente e adulto. A palavra já é encontrada no dicionário britânico da Editora Prion.

 

Lá consta: “adultescente como pessoa imbuída de cultura jovem, mas com idade suficiente para não o ser. Os adultescentes são pessoas que não conseguem aceitar o fato de estarem deixando de ser jovem”.

 

O aparecimento cada vez maior dos adultescentes tem relação direta com os valores da sociedade moderna na qual a juventude é sempre bem vinda e tudo a ela se agrega. É um fator muito forte de vitalidade.

 

De acordo com o psicólogo americano Dan Kiley, autor do best seller “A Síndrome de Peter Pan e Dilema de Wendy”, o problema surge quando a pessoa se recusa a crescer depois de um tempo e vive num mundo fictício, como se fosse um eterno jovem, fugindo de responsabilidades, querendo ser mais novo do que realmente é e curtindo a vida numa boa.

 

A teoria de Dan Kiley foi comprovada recentemente em uma pesquisa feita nos Estados Unidos pelo instituto Nielsen Media. O estudo revelou que existem mais adultos que assistem ao canal infantil Cartoon Network do que ao de noticiário CNN. O levantamento apontou ainda que 26% dos americanos que vêem com regularidade os desenhos animados têm acima de 18 anos.

 

Para Norka Bonetti, psicóloga e coordenadora geral do Departamento de Psicodrama do Instituto Sedes Sapientiae, a transformação de homens e mulheres em seres adultos implica necessariamente em ter, não só a responsabilidade do auto-sustento financeiro, mas também afetivo, moral, social e intelectual; e geralmente tudo isso inspira medo. “Muitos adultos querem fugir dessa responsabilidade e viram adolescentes para o resto da vida”.

 

Os limites: a inversão de valores
O problema se amplifica quando encontramos esse tipo de comportamento no ambiente familiar. Quando o lado adolescente do pai ou da mãe se sobrepõe ao adulto torna-se prejudicial ao filho. Crianças e adolescentes de verdade precisam saber que existe alguém que dita as regras e coloca limites.

 

Quando se quebra a hierarquia entre pais e filhos, fica difícil saber quem dita as regras, quem deve ser obedecido e quem obedece. Nesse caso, o próprio filho passa a agir como o adulto. Há uma verdadeira inversão de papéis, quando quem precisa ser cuidado, na verdade, é o filho.

 

Para Paulo Roberto Reimão Machado, psicólogo da PUC-SP e sócio-diretor do Círculo Integrado de Desenvolvimento Humano (DIDH), não há uma regra geral de como os pais devem se portar em relação aos filhos. Cada família é uma realidade a ser estudada individualmente.

 

Porém, temos algumas diretrizes do que não deve acontecer, ou do que deve ser cuidado caso aconteça. A constante inversão de papéis entre pais e filhos é, sem dúvida, uma dessas situações a ser cuidada.

 

Para que haja a inversão de papéis, as duas partes da relação devem aceitar a mudança. Quando um não topa, dois não invertem. Se os pais são imaturos, esse fardo é deles, assim como as conseqüências desse modo de ser. Claro que é difícil estar presente na família vendo a mãe ou o pai agir com imaturidade e não tomar as rédeas da situação, principalmente quando há um irmão presente.

 

“Evite a substituição. Há uma grande diferença entre ajudar alguém ensinando a pescar e a pegar o peixe para alguém. O maior auxílio a longo prazo que os filhos podem dar é acompanhá-los e responsabilizá-los gradualmente e não ser mãe ou pai por eles. É difícil fazer isso ao mesmo tempo em que se tem que lidar com as adversidades do dia a dia, que exigem posicionamentos imediatos”, comenta Reimão Machado.

 

Para os filhos, a dica é cuidar com carinho dos pais. Converse bastante com eles. Procure fazê-los entender que essa situação atrapalha a convivência do lar. Tente convencê-los a procurar ajuda, para se cuidar. “Caso nada disso funcione, lembre-se de que o problema é dos pais e não seu. Cabe a eles resolver amadurecerem ou não”, finaliza o psicólogo.

 

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