Terça-Feira, 7 de Setembro de 2010

EDIÇÃO 51

Márcia Tiburi

Analisa as questões éticas femininas e o papel da mulher na sociedade contemporânea

 

Por Bruna Mozer

Foto Eliana Rodrigues

 

 

Residenciais. Você focou sua carreira e formação acadêmica no comportamento e nas questões éticas e sociais do mundo feminino. Essa seria uma forma de você se autoafirmar como mulher?
Márcia Tiburi.
A questão das mulheres se tornou importante em função de minha preocupação com as questões de ética e estética. A minha produção acadêmica comporta várias outras questões, mas esta é, sem dúvida, bem importante. Uma coisa que aprendi com as minhas investigações sobre filosofia e feminismo é que tudo o que é pessoal é político. Também sou mulher e isso não precisa de muita autoafirmação. Ao mesmo tempo, não entendo isso como um modo de resolver os meus problemas. A questão histórica é bem mais complexa e é isso o que você aprende pesquisando. A pesquisa leva você a entender e respeitar o outro.

 

Residenciais. As mulheres têm desejos, vontades e necessidades diferentes das dos homens. No entanto, atualmente discute-se muito a igualdade entre ambos. Homens e mulheres devem desempenhar os mesmos papéis para que haja igualdade e satisfação?
Márcia Tiburi.
Existem desejos que são pessoais e outros que são compartilháveis. Não acho que exista um desejo feminino que não tenha sido inventado pelos homens, quando eles inventaram “a mulher” como um ideal. A diferença tem que ser vista dialeticamente com a igualdade de direitos, do contrário teremos o mundo do jeito que ele se fez até aqui. Não precisaríamos de feminismos, se houvesse justiça para as mulheres desde sempre.

 

Residenciais. No programa Saia Justa da GNT você era propriamente a filósofa Márcia Tiburi ou uma personagem projetada para o programa?
Márcia Tiburi.
O que você quer dizer com personagem? A televisão não permite que o espectador veja com muitos pontos de vista; ela enquadra um ponto de vista que entra em comunicação com o ponto de vista de quem vê. Sou um pouco daquilo que se vê, como todo mundo, mas espero ser mais também, afinal a vida está também fora da televisão. Mas sinceramente, não me importo muito se estou sendo eu mesma, afinal, quem vê é que será afetado por isso. Mais importante é o modo como cada espectador vê e se entende a partir do que ele vê.

 

Residenciais. As mulheres conquistaram espaço no mercado de trabalho, mas mesmo sendo independentes financeiramente e tendo sucesso profissional, muitas - principalmente quando beiram os 30 anos - se sentem infelizes, insatisfeitas por não estarem casadas ou com uma família formada. Será que tal independência tão cobrada pela sociedade é o sincero desejo das mulheres?
Márcia Tiburi.
Não penso que seja fácil se desprender destas amarras morais. Mas penso que estamos em uma nova fase. Hoje podemos ser livres - intelectual e moralmente - mesmo casadas. Mas não penso que casar e ter filhos seja o desejo das mulheres contemporâneas. Hoje temos outros desejos além deste aí que não deixa de ser um desejo legítimo. Ele é ruim quando se torna o único desejo diante de tantas novas possibilidades.

 

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