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EDIÇÃO 50
O cartão de visita da África do Sul (e da Copa)
Cores, paisagens e sentimentos percorrem essa cidade carinhosamente tímida e exagerada em encantos
Por Miguel Satúrio Pires
Fotos Kenny Sorriello
A Cidade do Cabo é talvez o melhor cartão de visita da África de Sul. Carinhosamente tímida, mas exagerada no seu encanto.
Inigualável na sua beleza, inexplicável na sua profunda simplicidade e sensualidade, Cabo, a cidade-mãe desta nação do século 21, transmite a quem por lá passa uma estranha sensação.
Parece que paramos no tempo. Um lugar onde o homem não compete com a natureza e pode-se admirar a consonância da vida selvagem com o Homem, principalmente por estarmos perto do Table Peak Reserve Park, uma enorme extensão de verde apenas limitada por redes que a separam da autoestrada, onde dezenas de zebras, springboks e outros animais passeiam calmamente.

É mais do que uma razão para dizer que, nesta peculiar e única cidade à beira-mar, tudo se conjuga, tirando proveito do que a natureza moldou com o correr dos séculos.
Servida por excelentes vias de comunicação, a capital legislativa sul-africana tem vida própria e um ritmo diferente de todo o resto. Saindo do Aeroporto Internacional do Cabo, que fica a pouco mais de 20 minutos do centro, o primeiro cartão de visita com que os nossos olhos se deparam é uma imensa área ocupada por bairros de lata.
Após alguns poucos quilômetros de auto-estrada, esse cenário desaparece para dar lugar a uma visão deslumbrante.
À nossa frente, cresce a Cidade do Cabo, rodeada pelos seus guardiões, que se erguem imponentes acima das nuvens; a Table Mountain, o Pico do Diabo, a Lions Head (assim conhecida pela sua forma e também por, reza a lenda, ter ali vivido e morrido o último leão da cidade) ou a Colina do Sinal, de onde ainda hoje, pontualmente no bater do meio dia, se fazem ouvir as salvas de canhão que recordam tempos passados em que os agricultores da cidade eram avisados de que um navio estava prestes a atracar no porto.

Aliás, é precisamente a partir da dita Colina do Sinal, por dispor da altura ideal e de ângulo exato, que se tem a melhor perspectiva de toda a cidade.
Deixe, portanto, o verdadeiro ex-libris de Cape Town para mais tarde. Guarde a visita à Table Mountain para quando tiver tempo de sobra para gastar lá no alto deste prodígio da natureza que alcança os 1086 metros de altura.
A vista é impressionante, com um alcance de cortar a respiração. Não refreie os sentidos. Dê margens à sua imaginação e tire partido da paz que o local transmite, desfrute do som do silêncio, apenas por vezes interrompido por um ou outro pássaro que lhe passa mesmo diante dos olhos.


Antes de descer a terra, aproveite ao máximo a viagem de cinco minutos a bordo do teleférico que faz a ligação ao alto da montanha.
Este moderno equipamento importado da Suíça está equipado no interior com uma democrática plataforma móvel que faz uma volta de 360º, proporcionando igualdade de direitos visuais a todos os passageiros. Se for dado a caminhadas e a exercício físico, pode escolher uma das 300 trilhas que sobem e descem a encosta da Table Mountain, cada uma com o seu grau de dificuldade.
Em tempos passados...
Lá embaixo, siga em direção ao mar e pelo caminho faça o seu roteiro. A cada esquina que dobrar, haverá sempre qualquer coisa para ver ou para descobrir, como por exemplo, o agora recuperado e multicolor Bairro Malaio, conhecido por Bo Kaap (por cima do Cabo), local ideal, dizem os populares, para quem quer solicitar os trabalhos das reputadas costureiras que ali assentaram arraiais desde a chegada à região de escravos malaios em meados do século 17.

Mas as portas destas pequenas e simples habitações de todas as cores, que vão desde o rosa pálido ao amarelo vivo, escondem outros segredos, tendo este bairro de ruas empedradas na encosta da Colina do Sinal fama de albergar alguns dos mais eficientes contabilistas da região.
Coisas que só a história pode explicar... Não abandone o local sem antes visitar o mais antigo edifício da zona, datado de 1760, na Wale Street, n.º 71, onde está instalado o Bo Kaap Museum.
Prova da sua capacidade de absorver e viver diferentes culturas e tendências é a arquitetura que faz a paisagem da cidade, com construções tipicamente vitorianas, fruto da colonização inglesa, a contrastarem com outras bem ao estilo holandês, mais imponentes e austeras, como, por exemplo, o edifício do Instituto Salesiano, instituição religiosa dedicada ao ensino que vive paredes-meias.
Espante-se, com a zona a que os locais chamam de Pink Map, nada mais nada menos do que o bairro gay, onde se multiplicam bares e restaurantes da moda. Outra característica desta área são as inúmeras lojas de decoração, todas very fashion.
Na Cidade do Cabo, em cada esquina que dobrar haverá sempre qualquer coisa para ver ou para descobrir, tais são as suas histórias e as muitas curiosidades com que nos deparamos.
Vida cosmopolita também encontrará na afamada Long Street, onde, porta sim, porta sim, proliferam charmosos antiquários, grande parte em estilo kitsch dos anos 50 e 60.
O ambiente é descontraído, o cenário é vitoriano, com as suas requintadas varandas de ferro forjado e os telhados esconsos, e o apelo ao consumo, uma verdadeira tentação. Nem mesmo as grades de segurança que barram a entrada o intimidam de gastar uns quantos rands nestas lojas de charme.


Se preferir espaços abertos para dar largas ao seu espírito consumista, nesse caso, o Cabo também é o lugar certo, já que os flea markets são uma verdadeira instituição local: o maior deles realiza-se todos os domingos no Green Point, em redor de um enorme complexo desportivo com vista para o histórico farol de Mouille Point, construído em 1824 e que ainda hoje funciona, com o seu potente e ruidoso toque de aviso a não permitir um sono tranquilo aos habitantes da zona nas noites de nevoeiro.
De resto, e com o clima de feição, as bancas começam a instalar-se de manhã, vendendo de tudo um pouco. Se por qualquer eventualidade não incluir um domingo durante a sua estada no Cabo, pode sempre visitar o Greenmarket Square, que funciona todos os dias e fica a poucos metros de distância da Long Street.
É um dos mais antigos mercados da cidade, criado em 1806, e foi, inclusive, classificado como monumento nacional. O ambiente é colorido pelas variadas peças de artesanato que ali poderá encontrar.
Com todas as construções portuárias mantidas com o traçado original, restaurantes, bares, discotecas, centros comerciais e hotéis de luxo, como é o caso do Table Bay Hotel, atraem milhares de pessoas, especialmente ao fim de semana, altura em que as imediações se tornam quase intransitáveis.
Uma nota: na caminhada do Brasil rumo ao hexa, a seleção canarinho pode pintar por lá, já que Cidade do Cabo é uma das sedes da Copa, portanto, não perca essa oportunidade.
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