Terça-Feira, 7 de Setembro de 2010

EDIÇÃO 50

Filho único: uma realidade moderna

Criança birrenta, emburrada, maleducada e sem limites. Este é o estereótipo que muitos têm de um filho único. Mas atualmente a realidade é bem diferente

 

Por Renata Guerreiro

Foto Silvio Juan Locke

 

Criança birrenta, emburrada, maleducada e sem limites. Este é o estereótipo que muitos têm de um filho único. Mas atualmente a realidade é bem diferente.

 

Criar um filho sem irmãos não é necessariamente ter um pequeno ditador em casa. O índice de famílias brasileiras que optam por ter apenas um filho tem crescido consideravelmente e esta decisão é tomada por diversos motivos, que incluem condição financeira, gravidez tardia, vida profissional etc.

 

 

Independente dos fatores que levam a esta condição, o importante é ressaltar que não existe nenhuma perda real em ser filho único.

 

A criança que cresce sem irmãos não será basicamente mimada ou solitária. Quando a família interage de forma saudável e sem excessos nos momentos em comum e incentiva a convivência da criança com primos, amigos e vizinhos a solidão não será um problema.

 

“Desde que os pais cultuem bons hábitos de educação e a criança tenha a oportunidade de no momento adequado ser inserida na sociedade, através do ingresso na escola, ser filho único não é um problema”, explica Antoniele Fagundes, consultora Familiar, formada em Filosofia e com quatro anos de Psicologia.

 

Muitas famílias alimentam a preocupação da criança não aprender a compartilhar, por ser sozinha. Espaços ou aparelhos que são divididos em casa como banheiros, escritórios, televisores e computadores são um bom exercício para inserir este conceito na vida da criança.

 

Aprenda a controlar o impulso

 

Outro ponto significante na criação de um filho único é aprender a controlar o impulso de fazer tudo pela criança. É importante que ela exercite suas capacidades e aprenda com seus erros e acertos.

 

“A atitude de educar sem exageros com a prontidão constante levará os filhos a compreender que existem outros interesses e pessoas além deles. E mais, ensinar que nem por isso eles deixam de ser importantes”, observa a consultora.

 

Em alguns casos os pais criam muitas expectativas sobre a criança, seus talentos, seu futuro etc. Situações deste tipo provavelmente podem levar à frustração.

 

A criança tem que ter liberdade para desenvolver suas habilidades de acordo com suas preferências e não apenas para realizar os sonhos dos pais.

 

Embora muitos enumerem diferentes aspectos negativos em ter apenas um filho, também existem pontos positivos nesta história.

 

O filho único possivelmente se tornará um adulto confiante porque se sente valorizado dentro do lar e o vínculo com os pais tende a ser mais próximo por conta do convívio.

 

Não se preocupe quando disser que tem um filho único e alguém falar: “deve ser mimado”. O pré-conceito existe e leva as pessoas a terem avaliações precipitadas.

 

O que faz a diferença é a sua consciência sobre a criação que dá ao seu filho e os exemplos que dará por meio da convivência. A educação reflete os valores da família e isso independe de criar um, dois ou dez filhos.

 

O filho único possui também mais qualidades que defeitos. Sempre foi dito que o conceito de filho único estava associado com a extrema proteção e a má educação.

 

No entanto, hoje em dia, o panorama dessa situação está mudando. As investigações chegam a assegurar que uma criança que é filha única, possui mais qualidades que defeitos.

 

Centro do universo

 

Antes, o filho único, tinha fama de crer que era o centro do universo, de ser egoísta, malcriado e rebelde. Hoje em dia, vê-se o lado positivo da situação. Considera-se o filho como uma pessoa normal, independente de ser filho único ou não.

 

Segundo a psicóloga argentina Gabriela Ensinck, o fato de ser filho único não é um elemento que define por si só o futuro de uma criança.

 

Sua evolução, como a de qualquer outra, depende da educação que lhe dá seus pais. O filho único pode ter um desenvolvimento tão sadio quanto o filho com muitos irmãos.

 

Alguns problemas que experimentam as crianças, como a dependência dos pais, o consentimento, a superproteção e a introversão não são apenas características dos filhos únicos.

 

Deve-se, na maioria das vezes à maneira como os pais as educam. Hoje entre 20 e 30% dos casais têm apenas um filho.

 

São muitas as famílias que decidem ter apenas um filho por diferentes razões. Em primeiro lugar, ter apenas um filho, dá à mãe mais oportunidade de trabalhar fora de casa.

 

Em segundo lugar, muitos pais não chegam a ter o número desejado de dois ou três filhos devido a uma ruptura antecipada matrimonial.

 

Em terceiro lugar, a infertilidade impede o nascimento de mais crianças. Na China, a situação é especial. O governo limita a população a ter apenas um filho.

 

Por um lado, para as famílias, supõe-se a metade de preocupações e a metade de gastos. Além de tudo, é possível ocupar-se melhor do filho e dar-lhe mais oportunidades e facilidades na vida.

 

Existem especialistas que afirmam que os filhos únicos possuem mais capacidade para ser vencedores na vida.

 

Consideram que a criança vive com uma carga menor de ansiedade porque não tem que disputar o espaço nem a atenção dos seus pais, o que pode ser incoveniente porque a criança não aprende a compartilhar.

 

Tudo lhe pertence

 

O problema de crescer sem irmãos é que todas as expectativas e as exigências familiares estarão postas sobre ele.

 

Talvez seja por isso que alguns estudos sinalizam que um filho único cresce com ideias de vencedor, devido a seus pais projetarem nele suas próprias ilusões e sempre exigirem dar o melhor de si mesmos. O filho único sofrerá os medos e os erros dos seus pais.

 

Não terão com quem compartilhar. E, além disso, aborrecem-se um pouco mais que o normal. Mas nada é tão definitivo. Tanto os filhos únicos como os que têm irmãos passam pelas mesmas situações.

 

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