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EDIÇÃO 49
A cidade onde "nasceu" Harry Potter
Histórias de fantasma e bruxas compõem o cenário sombrio, mas apaixonante, da capital da Escócia
Por Natashy Duarte Foto Chris Hepburn
Tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, a pacata Edimburgo guarda em suas antigas construções um passado estranho, o que até já a fez ser chamada de “Cidade do Pecado”.
São histórias reais e até surreais de assassinatos, doenças, guerras. Ainda há casos chocantes de fantasmas e bruxas para rechear Old Town, parte mais antiga da capital da Escócia. Um cenário perfeito para um filme de aventura e magia.
A jornada inicia logo cedo na Hunter Square, no The Troi pub, onde dá para saborear o verdadeiro e pesado english breakfast. Já bem alimentado e pronto para enfrentar as aventuras do dia, comece virando à esquerda na High Street, em direção ao Parliament Square, que foi construído em 1641 e utilizado pelo Parlamento escocês até o Tratado de União de 1707, feito com a Inglaterra.

Suba a Lawnmarket, uma rua de paralelepípedos estreita, onde podem ser encontradas diversas lojinhas de souvenires com a típica roupa escocesa e os kilts, a saia masculina. É aqui também que você poderá comprar um guarda-chuva xadrez, para não ser surpreendido pelo mau tempo típico da cidade.
Mais adiante, pelo estreito Castle Hill, estão as principais atrações pagas de Edimburgo. Dá para parar no The Edinburgh Old Town Weaving, uma antiga fábrica de tecelagem, ou na Gladstone’s Land, que mostra como era a vida dentro de uma casa no século 17, onde as famílias mais abastadas costumavam morar nos andares mais baixos, enquanto as mais pobres nos mais altos.
O motivo é que se houvesse um incêndio, o que era comum na época, pois toda a calefação do prédio era feita com carvão, os mais ricos conseguiriam se salvar. As ruas, como a própria Lawnmarket, eram usadas para a criação de porcos e os restos de comida e também os “banheiros” eram jogados à noite.
Os habitantes circulavam pelos closes, que eram ruas estreitas, parecidas com túneis entre os conjuntos habitacionais, que tinham até sete andares. Mais adiante, há a Camera Obscura “and the world of illusion” e o Scotch Whisky Experience, uma boa opção para os amantes do destilado, já que mostra todo o processo de fabricação da famosa bebida escocesa.


Castelos e pedras mágicas
A dica é seguir em frente e entrar no Castelo de Edimburgo. De lá, dá para ver toda a cidade, já que fica no topo de um vulcão extinto. Era lá que viviam os verdadeiros reis escoceses e que ficavam os prisioneiros de guerra.
Entre outras coisas, pode-se visitar a St. Margaret´s Chapel, datada do século 12, o edifício mais antigo da fortaleza e o único que se manteve inalterado. O Scottish National War Memorial ou o antigo palácio onde estão patentes as jóias da coroa escocesa — The Honours of Scotland — e The Stone of Destiny, a pedra onde os reis escoceses eram coroados.
A chamada Pedra do Destino, era o assento de coroação dos reis da Escócia, também usada na coroação da rainha Elisabeth II. A pedra voltou para a Escócia em 1996, com a condição de que retorne a Londres para seu uso em futuras coroações.
No século 13, a Pedra foi capturada pelo rei Eduardo I, da Inglaterra, e levada à Abadia de Westminster em Londres, para empregá-la na coroação dos reis ingleses. Há uma lenda que diz que, quando a pedra retornasse para seu país, a Escócia voltaria a ser um reino soberano.
Pode não ser verdade, mas é fato que, em 1998, o país voltou a ter um parlamento. Há um filme interessante chamado a “Pedra do Destino”, que conta a história de Ian Hamilton, um dedicado nacionalista escocês, que em 1950 reacendeu o orgulho nacional com sua ousada incursão à Inglaterra para recuperar a “Stone of Scone” e levá-la de volta à Escócia.
Ele roubou a pedra de dentro da Abadia e a levou de volta para Edimburgo. Aberto ao público está também o quarto onde Mary, rainha dos escoceses, deu à luz, em 1566, o futuro rei James VI da Escócia e I de Inglaterra.
Já fora das muralhas do castelo, na Esplanade, o muito discreto, mas nem por isso menos dramático, memorial Witches´Well marca o lugar onde, entre 1479 e 1722, foram queimadas mais de 300 mulheres acusadas de bruxaria.

É importante assinalar que a maior parte delas foi apenas vítima de ódios seculares entre famílias e nada tinham a ver com bruxedos. É hora de voltar à cidade. Desça a ladeira, vire à esquerda na Johnston Terrace, entre na Upper Bow e, à direita, na Victoria Street.
Nessa rua, já há vários restaurantes, mas é melhor seguir até a Grassmarket, uma praça com restaurantes para todos os paladares. Entre eles, está o pub White Hart Inn, desde 1740. Já na porta há a advertência de que o fantasma de uma das vítimas de William Burke e William Hare ainda circulam por lá.
Em 1828, os dois assassinos embebedavam suas vítimas antes de matá-las e vendê-las ao Doutor Knox para dissecação anatômica. Se ainda tiver estômago após a descoberta, peça fish and chips com uma pint de cerveja.
A inspiração de Harry Potter
Pela tarde, o dia já começa a ficar mais sombrio e é hora de deixá-lo ainda mais arrepiante. Siga à direita pela Cowgate head, vire novamente à direita na Candlemarker Row.
Depois de caminhar por uns cinco minutos, preste atenção ao pequeno pub à esquerda, o O2 Bar. Na modesta habitação acima, morava a escritora J. K. Rowling, autora da saga do bruxo Harry Potter, quando começou a escrever a série.
Mais adiante, na mesma rua, vale entrar no Greyfriar´s Graveyard. É lá que vive o mais aterrorizante polteirgeist existente: o fantasma do advogado Mackenzie, que há 400 anos torturava em vida os rebeldes Covenants, que eram contra o rei escocês.
Mackenzie foi enterrado em um grande mausoléu no mesmo cemitério onde as vítimas eram mortas e não teve sossego depois da morte. Passou a machucar as pessoas que se aproximavam de seu leito eterno. Suas antigas vítimas ainda agonizam na Convenants Prison.
O pequeno cemitério ainda foi palco da insanidade do famoso canibal James Douglas, Conde de Drumlanrig. A história conta que numa noite de 1707, Duke, mentalmente perturbado, escapou de seu quarto, enquanto os outros habitantes estavam fora.


Não encontrando comida na cozinha, ele assou uma criança no espeto e começou a comê-la. Não foi à toa que J.K. Rowling encontrou elementos para o enredo e para os personagens de sua obra nos jardins de Greyfriar´s.
Se você prestar atenção, nomes como o de Tom Riddel, o Voldemort, estão estampados nas lápides. Dizem que a George Heriot’s School, escola que fica atrás do cemitério, foi a verdadeira inspiração para Hogwarts, onde Harry Potter e seus amigos vivem a maior parte de suas aventuras.
A Old Town ainda esconde uma cidade subterrânea, que foi fechada durante a Idade Média, para conter a epidemia da peste negra. Milhares que viviam nesses lugares foram enterrados vivos e condenados a uma morte certa. Depois de enfrentar o desconhecido de tantas maneiras, o melhor mesmo é parar no pub Three Sisters, na Cowgate.
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