Domingo, 5 de Setembro de 2010

EDIÇÃO 48

Daniel Filho

Conta como foi recriar a figura de Chico Xavier e a imagem de Emmanuel no cinema

 

Por Anderson Botan
Foto Ique Esteve

 

 

Residenciais. Como foi o processo de criação da imagem do Emmanuel, o ser espiritual com quem Chico Xavier conversava?
Daniel Filho.
É uma imagem que existe. O difícil é, para mim que não sou espírita, edificar uma coisa em que não acredito e tinha que tornar aquilo real, já que Chico acreditava naquilo. Ele realmente falava com Emmanuel. Tinha muitas discussões com ele, como brigas por causa da peruca. Chegamos o mais próximo da figura desenhada. Não tivemos dificuldades em fazer a roupa, dentro do que ele imaginava e passava. A dificuldade foi em achar a voz para o personagem. No início, a voz primeira foi do próprio Ângelo Antonio, que dublou o ator. Tem um momento que fica entre a voz do Ângelo Antonio e a do ator. Depois, ficamos fazendo uma mistura até ficar apenas a voz do ator.

 

Residenciais. Você frisou em entrevistas que é ateu e não fez um filme espírita. Continua ateu convicto ou alguma coisa mudou?
Daniel Filho.
Todo mundo agora é obrigado a dar declarações sobre a sua opção sexual ou religiosa. Nunca pensei que tivesse que fazer uma declaração como esta. Tenho que esclarecer que não sou ligado a nenhuma religião. Digo simbolicamente que sou ateu, mas também um homem de fé. Como todo brasileiro, já fui à igreja, já fui umbandista e já tentei de tudo. Isso não quer dizer que, se me ocorrer uma coisa muito difícil, não irei buscar ajuda na igreja. Também quero dizer que não estou tentando fazer um filme espírita. Se o fosse, o espírito de Emmanuel apareceria de forma iluminada por uma luz divina.

 

Residenciais. Há alguma história forte ou sobrenatural que você relaciona de alguma forma a Chico Xavier?
Daniel Filho.
Há o episódio das lágrimas inexplicáveis. Queria ser apenas o produtor executivo, mas recebi o convite para ser diretor. À noite, jantando com minha ex-mulher, decidi fazer o filme. Ela me perguntou por que estava chorando; emocionado disse que estava tudo bem, e que não estava chorando. Quando me levantei e me vi no espelho, meus olhos estavam cheios de lágrimas. Sabe aquela coisa que você chora, se alivia e se sente melhor? Ocorreu o mesmo com o Marcel Solto Maior, autor do livro que serviu de base para o roteiro, quando ele se encontrou pela primeira vez com Chico Xavier. Ele era cético e estava lá jornalisticamente e quando o viu pela primeira vez, chorava sem sentir que estavam escorrendo suas lágrimas.

 

Residenciais. Você recebeu alguma mensagem de Chico durante ou depois das filmagens?
Daniel Filho.
Estive uma vez em um centro espírita e recebi uma mensagem atribuída a ele. Mas seu filho Eurípides e seu médico também chamado Eurípides disseram que Chico deixou uma palavra que, se ele aparecesse ou voltasse, usaria um código. Segundo eles, esse código ainda não foi revelado. Portanto, devo ter recebido alguma vibração, mas recebi realmente essa mensagem. Esse é o primeiro trabalho que faço em minha atual fase, na qual tenho autonomia de vôo para escolher o que faço. E esse não fui eu que escolhi; fui escolhido, convencido a fazer. Fui convidado por todos os envolvidos.

 

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